infancia

Sim, ela nasceu num dia qualquer, de um mês qualquer, em um ano qualquer, como qualquer outra pessoa. Aprendeu a falar (muito) antes de dar os primeiros passos. Ah, sim, a dificuldade de enfrentar seus caminhos: trombava em móveis, caía, chorava, e tornava a se levantar. Com o tempo, ela aprendeu que essa era a lei da vida, e começou a achar graça em colecionar as diversas cicatrizes que arranjava por aí (e tinha apego especial àquela pequena, em forma de V, no polegar da mão esquerda). Não gostava de desobediências, por menores que estas fossem. E a primeira vez que saiu escondida de sua mãe foi para comprar um presente pra ela. Sentia-se sozinha. E, talvez, por esse motivo, ou porque queria não pertencer a ‘maioria’, aprendeu a ler aos quatro anos de idade. E não parou mais. Era no mundo das palavras que ela se refugiava quando sentia medo. Ou em cima do telhado de sua casa. Ali ficava, parada, olhando o mundo sob um ângulo diferente do que o habitual. E desejava, um dia, tocar as nuvens. Ou as estrelas. Ou, quem sabe, ir para a lua. Nunca foi. Nas noites de silêncio, deitava-se na calçada, apossava-se da estrela mais brilhante, e inventava histórias sobre fadas, gnomos e um amigo que daria nomes diferentes às suas pequenas posses. Mais tarde, descobriu, na prática, que brincar em uma poça de lama com vestido e sapatinho brancos não era uma boa idéia, que ímã e televisão não se combinavam muito (embora se atraíssem sim, como ela havia dito a seu irmão), que descer uma ladeira com uma bicicleta sem freio não era uma aventura tão interessante quanto parecia (pelo menos não depois que já estava no chão, com os joelhos e a testa sangrando), e que o amor incondicional que o primo dizia sentir por ela não o impediria de lhe dar uma pedrada um dia antes do seu desfile de 7 de setembro (ah, sim, a cicatriz engraçada na sombrancelha!). Amava com certa facilidade: desde o ursinho de pelúcia que ganhara aos três anos de idade até a borboleta que havia acabado de sair do casulo feito na pilastra da varanda. Acompanhava encantada os passos da natureza (entre operações em mangas verdes e enterros de insetos) e, sem perceber, crescia com ela. À noite, nunca saía de sua cama sem o seu cobertor colorido enrolado ao corpo. E quando, por um motivo qualquer, ele sumiu de seu guarda-roupa, descobriu que chorar não o traria de volta de forma alguma. Foi nesse dia que ela parou de chorar. Por longos meses. Até que um dia acordou com a frase ‘Vitória, levanta, o vovô morreu’. Nesse dia ela não quis levantar, apesar da insistência. Chorou um oceano inteiro, e não se importou com o fato de que isso não traria aquele velhinho sorridente, que ela tanto amava, de volta. Se sentiu ainda mais sozinha. Deixou de subir no telhado. Abandonou seus livros e suas posses no céu. Quis fugir de casa. E por algum motivo, deixou de gostar de seu nome. Depois de longas semanas, seguiu em frente. Se superou? Não, acho que não. Ela ainda chora quando vê o túmulo em meio a tantos outros no cemitério. Chegou a pensar, por um instante, que Deus era egoísta quando lhe disseram que Ele havia viajado com seu padrinho, e que não voltaria mais. Se sentia uma estranha na escola. Talvez porque fosse mesmo estranha. Preferia xadrez do que bonecas. Árvores do que jogos de roda. Silêncios do que falatórios. Risadas do que choro e drama. Chegou a jogar futebol pra ser aceita pelos coleguinhas. E deixou de lado o vôlei para não receber (ainda mais) críticas. De nada adiantou. Foi nessa época que voltou a gostar dos livros, achando neles um refúgio, um porto seguro. Adorava ler embaixo de árvores. E no ônibus. E no canto da cama. E no chão. Hoje ela só não lê no ônibus. Quis ter um jardim em sua casa. E uma biblioteca também. Mais tarde, até mesmo uma adega. Quis aprender inglês, e na primeira vez que traduziu uma música, sozinha, descobriu que ela não falava de amor, apesar da melodia. A partir desse dia, não parou mais de traduzir. A caneta e o papel se tornaram suas válvulas de escape. Teve planos de ser escritora e se tornar a pessoa mais importante de sua cidade. Mas, em um dia qualquer, acabou jogando na lixeira as trezentas páginas de um livro que tinha feito. Sonhava. E, sem notar, amadurecia pouco a pouco. Achou, em um instante iluminado, que ser diretora de teatro poderia dar dinheiro. E que a música lhe faria feliz (acertou!) - e rica (doce desilusão!). Aprendeu a tocar violão, mas sonhava com aulas de piano. Quis ter aulas de balé. Não teve. E apesar de escolher Direito, pensa ainda no curso de fotografias que quer fazer. E na câmera profissional que ainda vai comprar. Achou que perderia a fé quando perdeu (irremediavelmente) 98% da visão de um olho e levou o primeiro dos muitos tombos em lugares públicos, devido a pouca visibilidade. Estava enganada. Ainda assim, foi uma das que acreditaram no fim do mundo em 2000. E confundiu um objeto qualquer com um disco-voador. Riu quando ganhou o apelido de mulher maravilha por ter sobrevivido a um acidente (e assim, soube encará-lo com mais facilidade). Teve medo de falar de seu gosto musical - até porque não tinha nenhum. E em um dia de janeiro, foi acordada, docemente, com um café-da-manhã feito pelos seus amigos, em sua casa (e era disso que ela se lembrava quando achava que estava sozinha). As pessoas a achavam extrovertida e falante. E ela era. Assim como era tímida. Tão tímida que ficava vermelha quando se envergonhava. Vermelha mesmo, como um pimentão. Realizou um sonho de uma vida inteira. E quis abrir mão dele para estar perto de uma única pessoa. Hoje ela sorri quando pensa nisso (ou nele?). E tem a certeza de que esse alguém é mais feliz sem ela por perto (e, por um momento, esse sorriso se desfaz, já que ela ainda não é ‘bem’ feliz sem ele). Um dia, achou que 5 mil habitantes poderiam ser suficientes. Depois pensou melhor e achou que 50 mil eram o bastante. Hoje ela tem certeza de que 2 milhões é o mínimo. Ah, ela quis morrer antes dos dezoito, e nem era emo. Já gostou de coldplay, de Avril, de Evanescence. E não era emo. Até teve planos de virar hippie se não conseguisse o que queria até os 23. 

E aqui está ela, com 18 anos - e não morreu. E espera, ansiosa, nunca se tornar hippie.